A tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da jornada de trabalho 6×1 ganhou novos contornos de disputa política na Câmara dos Deputados. Parlamentares da base governista e a autora do projeto original, deputada Erika Hilton (PSOL-SP), acusam formalmente o Partido Liberal (PL) de adotar uma estratégia de obstrução velada ao defender a implementação imediata da jornada 4×3 (quatro dias de trabalho e três de folga).
A mudança de postura da oposição, que historicamente demonstrava resistência à alteração das regras trabalhistas vigentes, tensionou os debates na comissão especial responsável por avaliar o texto.
A estratégia do “tudo ou nada”
O relatório em discussão na comissão especial estabelece um modelo de transição gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, assegurando o descanso no formato 5×2 (cinco dias de trabalho e dois de folga). Trata-se de um meio-termo costurado para dar viabilidade política à aprovação e reduzir o impacto imediato no empresariado.
Ao apresentar um destaque que tenta retomar a proposta radical de quatro dias trabalhados, o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), desafiou a esquerda e o Partido dos Trabalhadores (PT) a assinarem a medida mais ampla. O movimento é visto por governistas como um “constrangimento político” desenhado para forçar a base aliada a votar contra uma pauta que, teoricamente, seria de interesse do trabalhador.
Bastidores revelam foco no impacto eleitoral
A motivação por trás do apoio do PL ao modelo 4×3 foi explicitada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Em posicionamento publicado em suas redes sociais, o parlamentar afirmou que a ala de direita deveria apoiar a jornada mais reduzida para acelerar eventuais efeitos econômicos colaterais negativos, associando o ônus diretamente ao atual governo antes dos próximos pleitos.
Pelo lado da base aliada, o deputado Rogério Correia (PT-MG) apontou que o objetivo prático do destaque é puramente processual: inflar o texto para que ele encontre forte resistência no Senado. Caso os senadores alterem o mérito da proposta, o projeto obrigatoriamente precisará retornar à Câmara dos Deputados, o que atrasaria ou até anularia as chances de promulgação a curto prazo.
Próximos passos e articulação no plenário
Erika Hilton criticou a manobra da oposição, classificando o movimento como uma tentativa disfarçada de manter a atual escala 6×1 por meio do travamento institucional da matéria. Segundo a deputada, o apoio repentino do PL ao modelo 4×3 simula um benefício ao trabalhador, mas visa inviabilizar o consenso político já construído.
A articulação governista agora se concentra em isolar a proposta da oposição no plenário. A estratégia desenhada consiste em rejeitar o requerimento de preferência do destaque do PL e, na sequência, derrubar o mérito da emenda dos quatro dias de folga, mantendo o foco na aprovação do relatório original baseado no modelo 5×2. Devido à forte pressão e engajamento popular nas redes sociais, líderes da base avaliam que a oposição dificilmente votará contra o mérito final do encerramento da jornada 6×1.
